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segunda-feira, 21 de março de 2011

Custos e benefícios da sinceridade

Meu primeiro namorado tinha mania de rir de mim.
Ele tirava onda das minhas ratadas no vôlei, fazia piada se eu fosse tocar piano e errasse, passava a manhã inteira na escola enchendo o saco porque não gostou do brinco que eu usava.
Eu, por outro lado, já era assim mesmo, desse jeito: botei o brinco, não vou tirar por causa de namorado. E ficava inchando com as provocações.
Mas tem seu lado bom, e, afinal, todos hoje falam tanto do quanto é essencial ser sincero...

Quando ele dizia "Lu, você está linda", eu sabia que não era fingimento. Então os elogios e palavras tinham muito mais força, impulsionadas pela honestidade. Assim como o 'eu te amo' fazia mais sentido

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Receita de Homem

Vinícius de Moraes fez a Receita de Mulher. Agora, eu tomei-a emprestada pra colocar a receita do oposto.  Eis aqui:



Os feios que me perdoem, mas beleza é fundamental.

 É preciso que haja qualquer coisa de porte, qualquer coisa de surf wear em tudo isso (ou então que o homem se socialize elegantemente em preto).

Não há meio termo possível. É preciso que tudo isso seja belo. É preciso que de repente se tenha a impressão de ver um cavalo pronto a guiar a manada, e que um rosto adquira de vez em quando essa expressão somente encontrável nas canções de Nando.

É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e se harmonize na cabeça das mulheres.

É preciso, é absolutamente preciso que tudo seja belo e inesperado. É preciso que uns olhares misteriosos lembrem um filme de james Bond.



Ah, deixai-me dizer-vos que é preciso que o homem que ali está como o beija-flor ante à tulipa seja belo ou tenha pelo menos um rosto sem relevos exarcebados e que seja tênue como um punhado de água; mas que seja uma água com olhos e largos ombros. Ombros largos é importantíssimo. Olhos, então, nem se fala, que olhem com certo desejo contido. Uma boca fresca (sempre macia) é também de extrema pertinência.

É preciso que as extremidades tenham contorno, que umas tensões despontem, sobretudo a panturrilha ao mover dos pés.

Gravíssimo é, porém, o problema das costas em V: um homem sem costas em V é como um rio assoreado.


Indispensável que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida o homem se imponha em corcel, e que seus peitos sejam uma expressão brasileira, mais que fortes ou lisos, e possam esquentar o ambiente com uma capacidade mínima de 180 graus.

Sobremodo pertinaz é estarem as orelhas e a nuca à mostra; as pontas que terminem como curvas, mas bem haja um certo volume de nádegas, e que elas sejam rijas, rijas como a superfície das mangas e contidas, no entanto suficientes para acomodar as mãos das mulheres.

Os olhos, que sejam de preferência expressivos, e coloquem-se sempre para lá de um invisível muro da conquista que é preciso ultrapassar.

Que o homem seja em princípio alto, ou, caso baixo, que tenha a atitude mental dos poetas.

Ah, que o homem dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos, ao abri-los ele terá preparado uma surpresa, com seu sorriso e suas tramas. Que ele surja, não venha; parta, não vá.

E que possua uma capacidade de distanciar subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida.

Oh, sobretudo que ele não perca nunca, não importa em que mundo, a sua infinita volubilidade de pássaro; e quando olhado com profundidade, transforme-se em fera sem perder a sua natureza protetora, que destile sempre o embriagante desejo, e não deixe nunca de ser compositor do efêmero, e em sua incalculável imperfeição, 
constitua a coisa mais atraente e mais perfeita de toda a criação inumerável.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Obsessão

Fragmentos de um amor que oscila entre a indiferença e a possessividade.
Extraído de uma data qualquer do meu diário.



"Uma coisa que eu sei é que tem volta.

Ele saiu de minha vida assim, sem deixar feridas. Agora sei onde encontrá-lo. Os dias sem ele têm sido bons, não tenho do que me queixar. Passam cheios, jamais brancos. Tenho cuidado das minhas coisas e ele não é o tipo que me ocupa o tempo e me tira do ofício. Ele tem cuidado dos objetivos dele - e eu dos meus. Não penso tanto nele, nem sequer leio as páginas que escrevi sobre nós, porque hoje o observo como quem vê um amigo experiente que pode lhe dar bons conselhos.


Mas não vai ser assim por muito tempo. Vai ter o dia em que ele virá.

E é bom que o sentimento seja sincero, natural, espontâneo, que posso sentir raiva dele e expressar, ou gostar e demonstrar. É essa liberdade que me traz paz. E é o fato de eu não me abalar que o prende a mim, porque por mais que eu não entenda porque ele invocou em me querer, eu sei que há algo que eu não entendo - e que talvez nem ele entenda - que o une a mim, de uma forma tão simples e tênue que o faz sentir-se meu.

E ele é."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Em frente ao espelho.

Vou dedicar as postagens dessa semana ao romantismo. Abaixo, um texto que fiz em 16 de julho.



“Ela, quando prende o cabelo em coque, deixa ver os fios curtos na nuca, cobrindo a pele branca e fresca. O rosto, apenas com a franja curta tocando as sobrancelhas, fica mais arredondado e juvenil. O sorriso, quando se vê no espelho, empurra as bochechas e faz franzir os cantos dos olhos. Os cabelos, na lateral, fazem linhas suaves e brilhosas.

Seria mais perfeito se fosse um homem que escrevesse essas palavras – mas algo em seu íntimo lhe diz que isso jamais acontecerá. Que a beleza que ela mesma percebe é apenas vista pelos outros superficialmente, pois ninguém esteve atento aos detalhes. E todas as palavras que denunciam essa descrição não foram escritas ou pensadas por um homem. Elas sequer saíram das mãos de outra mulher.

Porque ela sou eu.”